Paulicéia Acelerada


A SP DOS EXCLUÍDOS
Maio 13, 2008, 6:39 pm
Arquivado em: Anna Ligia

Por Anna Ligia Machado

 

 

 

 

 

Quando a cidade de São Paulo é pautada, os temas mais recorrentes são o trânsito, as cenas de violência e o universo dos negócios, ou seja, os problemas que mais afetam as classes média e alta da metrópole. No entanto, pouco se fala das cenas de exclusão que presenciamos cotidianamente. Seja com o mendigo da esquina, com as crianças trabalhando nos faróis ou com os carroceiros. Assim como alguns lugares de São Paulo são invisíveis, (como tratei aqui no Paulicéia, no post Os lugares invisíveis de São Paulo) alguns de seus personagens também o são.

É difícil olhar para os indivíduos miseráveis, fruto da desigual sociedade na qual vivemos e, neste sentido, optamos por negar sua existência. Fechamos os vidros dos veículos e seguimos nossa rotina, isso quando não oferecemos algumas moedas aos pedintes na tentativa vã de ajudá-los a diminuir seus problemas.

Sentimo-nos de mãos atadas e culpados pelo que vemos pois, no fundo, sabemos que esta é a lógica do capitalismo e que para que os ricos e a economia se sustentem, sempre haverá pobres e famintos. É o chamado “colchão de sustentação” capitalista.

 

Ônibus 174

Acredito que foi com o objetivo de esclarecer essa situação que o diretor José Padilha (o mesmo de Tropa de Elite) resolveu produzir o documentário “Ônibus 174”, no qual busca resgatar as diferentes e profundas causas que levaram Sandro do Nascimento a seqüestrar o veículo e manter vítimas sob a mira de um revólver por cerca de 4 horas, tendo assassinado uma delas.

A triste e comum história de Sandro foi marcada por presenciar o esfaqueamento de sua mãe, quando tinha apenas seis anos. Durante sua adolescência, já morador de rua, o jovem também foi vítima da Chacina da Candelária.

 

O objetivo aqui não é o de justificar os atos de violência cometidos, mas sim de provar que a situação que vivenciamos hoje é fruto de sementes de indiferença e desigualdade com relação aos excluídos, plantadas pela sociedade brasileira por muito tempo.

E a violência só passou a ser vista realmente como um problema quando alcançou as classes privilegiadas da sociedade. A tragédia de ver dezenas de pessoas mortas na periferia não chega aos pés daquela proporcionada pelo assassinato de um rico.

 

Os atos violentos que presenciamos quase que diariamente não são nada mais do que um grito em busca de atenção daqueles que se calaram e que viveram esquecidos e marginalizados por tanto tempo.

Até quando essa situação se sustentará?

   

  

 

Deixo para vocês um vídeo com a música O meu país, do grande Zé Ramalho. A letra da canção(abaixo) permite uma profunda reflexão sobre o Brasil e nos faz repensar a forma como enxergamos o mundo a nossa volta. Grande Zé!

 http://www.youtube.com/watch?v=p2ECPW5GYzA

O meu país (Zé Ramalho)

 

Tô vendo tudo, tô vendo tudo

                                

Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

       

Tô vendo tudo, tô vendo tudo

           

Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

 

Um país que crianças elimina

                              

Que não ouve o clamor dos esquecidos

    

Onde nunca os humildes são ouvidos

                            

E uma elite sem Deus é quem domina

      

Que permite um estupro em cada esquina

                    

E a certeza da dúvida infeliz

                             

Onde quem tem razão baixa a cerviz

                           

E massacram-se o negro e a mulher

  

Pode ser o país de quem quiser

      

Mas não é, com certeza, o meu país

 

Um país onde as leis são descartáveis

                       

Por ausência de códigos corretos

                 

Com quarenta milhões de analfabetos

                      

E maior multidão de miseráveis

   

Um país onde os homens confiáveis

                           

Não têm voz, não têm vez, nem diretriz

                       

Mas corruptos têm voz e vez e bis

                 

E o respaldo de estímulo em comum

    

Pode ser o país de qualquer um

      

Mas não é, com certeza, o meu país

 

                 

Um país que perdeu a identidade

                      

Sepultou o idioma português

        

Aprendeu a falar pornofonês

                       

Aderindo à global vulgaridade

                      

Um país que não tem capacidade

                            

De saber o que pensa e o que diz

                         

Que não pode esconder a cicatriz

                         

De um povo de bem que vive mal

    

Pode ser o país do carnaval

       

Mas não é, com certeza, o meu país

 

Tô vendo tudo, tô vendo tudo

           

Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

        

Tô vendo tudo, tô vendo tudo

           

Mas, bico calado, faz de conta que sou mudo

 

Um país que seus índios discrimina

                               

E as ciências e as artes não respeita

   

Um país que ainda morre de maleita

                       

Por atraso geral da medicina

                       

Um país onde a escola não ensina

                             

E hospital não dispõe de raios X

                           

Onde a gente dos morros é feliz

                             

Se tem água de chuva e luz do sol

    

Pode ser o país do futebol

       

Mas não é, com certeza, o meu país

 

 

 


7 Comentários até o momento
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Muito legal o post Anna!
Acho você uma extremamente sensível e inteligente. Devia deixar isso fluir mais, acreditar nisso..

É legal a gente divulgar o trabalho dos colegas, não é? Então tô te passando esse link com um texto da Karla que fala mais ou menos do mesmo tema: http://universotpm.blogspot.com/2008/04/um-desabafo.html

Um beijo!

PS- Ahhh, só pra não perder o costume, só faltou você linkar mais (dentro do texto).. rsrsrs..

Comentário por William Maia

A intenção é linda. Isso é o que importa.

Comentário por J.

Ué, não entrou..

Mas como eu disse ontem, o post tá muito legal! Dessa forma o blog fica muito mais interessante.

Te acho uma pessoa extremamente sensível e inteligente Anna. Deveria deixar isso transparecer mais, e não duvidar tanto de si mesma.

É legal a gente divulgar o trabalho dos colegas, não é? Então te passo o link de um texto da Karla que trata mais ou menos do mesmo tema: http://universotpm.blogspot.com/2008/04/um-desabafo.html

Um beijo!

PS- Só pra não perder o costume.. Acho que faltou você linkar mais (dentro do texto).

Comentário por William Maia

teste

Comentário por William Maia

É a quinta vez que eu vou escrever esse comentário, vamos ver se agora entra..rsrs

Como eu disse das outras vezes, o post ficou muito legal!

Você é uma pessoa extremamente sensível e inteligente, Anna – e você sabe que não sou de ficar enchendo a bola de ninguém, né?! rsrs… Deveria deixar isso aparecer mais. Duvidar menos de si mesma.

É legal a gente divulgar o trabalho dos nossos colegas, não é? Então te passo esse link com um texto muit bom da Karla, que fala mais ou menos do mesmo tema: http://universotpm.blogspot.com/2008/04/um-desabafo.html

Um beijo!

PS- Só pra não perder o costume, falou você linkar mais dentro do texto (hehe)

Comentário por William Maia

Agora vai!!!

Como tinha dito nas outras 18.547 tentativas, o post ficou bem legal, muito mais solto. Zé Ramalho é demais!

Te acho uma pessoa extremamente sensível e inteligente, Anna. Você deveria deixar isso aparecer mais. Não duvide tanto de si mesma.

É legal a gente divugar o trabalho dos nossos colegas, não é? A Karla fez um texto muito bom que fala de um tema parecido com o seu, o link é: universotpm . blogspot . com / 2008 / 04 / um-desabafo.html (sem os espaços, claro).

Um beijo e parabéns Anna!

PS – Pra não perder o costume (rsrs) acho que só faltou você linkar um pouco mais dentro do texto (hehe)..

Comentário por William Maia

Anna Ligia, você sempre dedica amor ao próximo e trabalha para dar alegria ao semelhante por isso consegue ver a realidade e passar tal mensagem.

parabéns, vá em frente!

Comentário por Cida




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